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Gestão de Acessos: porque credenciais ainda são um dos maiores riscos

  • 7 de jul.
  • 6 min de leitura

 

por Fabio Mazine

Head de Defensive

 

Capa em fundo azul-marinho com o logo da Aizen no canto superior esquerdo, título “Gestão de acessos” e ilustração minimalista de credenciais, senha, cadeado e escudo, representando proteção de identidades, privilégios e MFA.

Toda empresa depende de credenciais para funcionar.

Usuários acessam sistemas internos, administradores entram em servidores, desenvolvedores usam repositórios, equipes acessam plataformas em nuvem, fornecedores entram em portais e aplicações se conectam por APIs (interfaces usadas para integração entre sistemas).

O problema é que cada credencial também pode se transformar em uma porta de entrada.

Quando uma senha vaza, uma conta antiga continua ativa, um acesso privilegiado não é revisado ou uma autenticação depende apenas de usuário e senha, a empresa passa a confiar que ninguém indevido usará aquele caminho.

 

E essa é uma aposta perigosa.


Por que credenciais continuam sendo um risco tão relevante?

 

Credenciais são atrativas porque, quando funcionam, fazem o atacante parecer um usuário legítimo.

Em vez de explorar uma falha técnica complexa, o invasor pode simplesmente entrar usando uma conta válida. Isso reduz barreiras, dificulta a detecção e aumenta o risco de movimentação lateral (quando o atacante usa um acesso inicial para tentar alcançar outros sistemas dentro do ambiente).

 

Na prática, uma credencial comprometida pode permitir acesso a e-mails, sistemas financeiros, ambientes em nuvem, repositórios de código, bancos de dados, VPNs (redes privadas usadas para acesso remoto) e painéis administrativos. Por isso, gestão de acessos não é apenas uma questão operacional e sim uma frente central de redução de risco.


O problema não é só a senha fraca

 

Quando se fala em credencial, muita gente pensa apenas em senha fraca. Mas o problema costuma ser mais amplo. Uma empresa pode ter senhas complexas e, ainda assim, estar exposta.

 

Isso acontece quando:

  • Contas antigas continuam ativas depois que colaboradores mudam de área ou deixam a empresa.

  • Acessos privilegiados são concedidos sem revisão periódica.

  • Sistemas críticos não exigem MFA (autenticação multifator, quando o acesso exige mais de uma forma de validação).

  • Usuários acumulam permissões ao longo do tempo.

  • Fornecedores mantêm acessos ativos mesmo após o fim de um contrato.

  • Aplicações usam chaves de API (credenciais técnicas usadas por sistemas) sem rotação ou monitoramento.

  • Contas compartilhadas impedem rastreabilidade, ou seja, a empresa não consegue saber quem fez determinada ação.

 

O risco, portanto, não está apenas na senha. Está na falta de governança sobre o ciclo de vida do acesso.


O que é gestão de acessos?

 

Gestão de acessos é o conjunto de processos e controles que define quem pode acessar quais recursos, por quanto tempo, com qual nível de permissão e sob quais condições.

 

Ela envolve três perguntas simples:

  1. Quem é essa pessoa ou sistema?

  2. O que ela pode acessar?

  3. Esse acesso ainda faz sentido?

 

Uma gestão madura considera todo o ciclo de vida da identidade, desde a criação da conta até sua alteração, revisão e remoção. Isso inclui, também, entrada de novos colaboradores, mudanças de função, desligamentos, acessos emergenciais, contas de fornecedores, contas administrativas e identidades não humanas, como robôs, aplicações e integrações.

 

Quando esse processo não existe ou não é acompanhado de forma recorrente, a empresa passa a acumular acessos desnecessários. E acesso desnecessário é superfície de ataque.


Privilégio excessivo aumenta o impacto do incidente

 

É importante ressaltar, que nem todo acesso tem o mesmo risco. Uma conta comum pode causar impacto limitado. Já uma conta privilegiada pode permitir alteração de configurações, criação de novos usuários, acesso a bases de dados, desativação de logs (registros de atividade), remoção de controles e movimentação para outros ambientes.

 

Por isso, uma boa prática é aplicar o princípio do menor privilégio. Isso significa conceder apenas o acesso necessário para que a pessoa ou sistema execute sua função, nada além disso. Também é importante revisar acessos periodicamente. Um acesso que fazia sentido há seis meses pode não fazer mais sentido hoje.

 

Sem revisão, as permissões se acumulam. O colaborador pode até mudar de função, mas continua como acesso a sistemas antigos. O fornecedor conclui o projeto, mas a conta continua ativa. O administrador temporário vira administrador permanente.

 

Esse acúmulo cria risco silencioso.


MFA reduz risco, mas precisa ser bem aplicado

 

A autenticação multifator é uma das medidas mais importantes para proteger credenciais. Segundo a CISA, agência de segurança cibernética dos Estados Unidos, o uso de MFA torna contas 99% menos propensas a serem invadidas. Isso acontece porque, mesmo que a senha seja comprometida, o atacante ainda precisa vencer uma segunda camada de validação, como aplicativo autenticador, chave física ou biometria. Mas o MFA precisa ser aplicado nos lugares certos.

 

A prioridade deve ser dada a contas administrativas, VPNs, e-mail corporativo, ambientes em nuvem, sistemas financeiros, aplicações críticas e painéis expostos à internet. Também é importante lembrar que nem todo MFA oferece o mesmo nível de proteção. Métodos resistentes a phishing (técnicas que reduzem o risco de o usuário entregar o fator de autenticação em uma página falsa), como chaves de segurança e passkeys, tendem a ser mais robustos do que códigos por SMS.

 

O ponto principal é simples: depender apenas de senha deixou de ser aceitável para acessos críticos.


Exemplo real: Colonial Pipeline

 

Um dos exemplos mais conhecidos do impacto de credenciais comprometidas ocorreu em 2021, no ataque de ransomware contra a Colonial Pipeline, empresa responsável por uma parte importante do abastecimento de combustíveis na Costa Leste dos Estados Unidos.

 

Segundo a CISA, o ataque de ransomware à Colonial Pipeline, em 7 de maio de 2021, teve grande repercussão e gerou cenas de filas em postos de gasolina. Em depoimento ao Senado dos Estados Unidos, o CEO da empresa afirmou que o ataque ocorreu por meio de um sistema legado de VPN que não tinha autenticação multifator. A Reuters reportou esse depoimento e destacou que o acesso podia ocorrer apenas com senha, sem uma segunda etapa de validação.

 

Esse caso mostra um ponto essencial: uma credencial não protegida adequadamente pode gerar impacto muito além da área técnica. O problema não fica restrito ao login. Ele pode afetar operação, abastecimento, receita, reputação, comunicação de crise e confiança pública.


O que a ISO 27001 ajuda a organizar

 

A ISO 27001 trata segurança da informação como gestão. Isso é importante porque gestão de acessos não se resolve apenas com uma ferramenta. É necessário definir política, responsabilidade, processo, evidência e revisão.

 

No contexto de uma avaliação de maturidade, o pilar de acessos e identidades deve verificar se a empresa possui autenticação centralizada, MFA nos ambientes críticos, revisão periódica de acessos, controle de privilégios, rastreabilidade e remoção de contas desnecessárias.

A pergunta não é “temos usuários cadastrados?”. A pergunta é: sabemos quem acessa o quê, por que acessa e se esse acesso ainda deveria existir?


Sinais de que a gestão de acessos precisa evoluir

 

Alguns sinais indicam que a empresa ainda está exposta:

  • Não existe revisão periódica de acessos.

  • Contas administrativas são usadas no dia a dia.

  • MFA não está habilitado em sistemas críticos.

  • Não há processo claro de remoção de acessos em desligamentos.

  • Fornecedores mantêm contas ativas após o fim do contrato.

  • Existem contas compartilhadas entre usuários.

  • Chaves de API ficam armazenadas em repositórios ou planilhas.

  • A empresa não sabe quais usuários têm privilégios elevados.

  • Logs de acesso não são analisados ou não estão disponíveis.

 

Esses pontos indicam que a segurança ainda depende mais da confiança do que do controle.

 


Como começar a reduzir o risco

 

O primeiro passo é mapear os acessos críticos. Não é necessário resolver tudo de uma vez. Comece pelos sistemas que sustentam a operação, armazenam dados sensíveis ou permitem administração do ambiente.

 

Depois, algumas ações práticas ajudam a criar uma base mais segura:

  • Habilitar MFA nos acessos críticos.

  • Revisar contas privilegiadas.

  • Remover usuários inativos.

  • Eliminar contas compartilhadas sempre que possível.

  • Definir responsáveis por aprovar acessos.

  • Criar processo claro para entrada, mudança de função e desligamento.

  • Revisar acessos de fornecedores.

  • Registrar e monitorar acessos administrativos.

  • Aplicar o princípio do menor privilégio.

 

Essas ações reduzem risco sem depender de grandes transformações iniciais.

Com o tempo, a empresa pode evoluir para IAM (gestão de identidades e acessos), PAM (gestão de acessos privilegiados) e automações de revisão e provisionamento (criação, alteração e remoção automática de contas).

Mas a maturidade começa antes da ferramenta. Começa pela visibilidade.


Gestão de acessos também protege dados

 

Credenciais dão acesso a dados. Por isso, uma falha de acesso pode se transformar em incidente de privacidade. A LGPD prevê sanções administrativas que podem incluir multa simples de até 2% do faturamento da pessoa jurídica, limitada a R$ 50 milhões por infração.

Mas, novamente, a multa é apenas uma parte do problema. O impacto pode envolver investigação, comunicação a titulares, comunicação à autoridade, custos jurídicos, perda de confiança e desgaste comercial.

Controlar acessos é uma forma direta de reduzir esse risco.

 


Conclusão

 

Credenciais continuam sendo um dos maiores riscos porque representam o caminho mais direto entre o atacante e os ativos críticos da empresa. Quando a gestão de acessos é frágil, a organização perde visibilidade sobre quem pode acessar o quê, quais privilégios estão acumulados e quais contas já deveriam ter sido removidas.

 

Uma gestão madura de acessos reduz a chance de invasão, limita o impacto de uma credencial comprometida e melhora a capacidade de resposta.

 

No fim, a pergunta que toda empresa precisa responder é simples:

Se uma credencial for comprometida hoje, até onde ela levaria?

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